NOTÍCIAS

   
14.10.2013

Hospital Antonio Pedro: déficit de 500 profissionais e fila de dois anos

fonte: O Globo

O Hospital Universitário Antonio Pedro encolheu. A unidade federal, que foi referência de serviços de saúde em Niterói e absorvia, até a primeira metade da década passada, boa parte da demanda da cidade e de municípios vizinhos, hoje atende cerca de 200 mil pessoas por ano em seus ambulatórios e na emergência, hoje referenciada (recebe apenas pacientes encaminhados por outras unidades da rede pública).

Em 2006, o hospital recebia três vezes mais: eram realizados aproximadamente 600 mil atendimentos nos dois setores. Enquanto as estatísticas diminuem, o sofrimento dos pacientes aumenta. A espera por uma cirurgia chega a durar mais de 24 meses, e a marcação de consultas no ambulatório, que só funciona de segunda a sexta, começa a se limitar a uma por ano, dependendo da especialidade, por falta de médicos.

Por outro lado, a superlotação e os constantes problemas, como infecções hospitalares e macas nos corredores, acabaram. De acordo com o diretor Tarcísio Rivello, a queda no número de atendimentos é decorrente de dois fatores: déficit de mais de 500 profissionais de saúde e mudança no perfil da instituição, imposta por ele há sete anos. Até abril de 2014, a carência de mão de obra deverá aumentar, já que o Antonio Pedro perderá mais de 200 profissionais temporários.

Operação marcada desde 2011

A diarista Maria Francisca da Silva, de 55 anos, sentiu na pele as consequências da escassez de profissionais de saúde no hospital. Na última quarta-feira, ela se submeteu a uma cirurgia para a retirada de dois nódulos no útero. A operação era aguardada há dois anos.

— Marquei a cirurgia em setembro de 2011. Na ocasião, os médicos que me atenderam prometeram fazer a operação em janeiro deste ano, mas acabaram adiando. Vivi todo esse tempo com medo, porque eles haviam dito que, se demorasse muito, correria o risco de os tumores, benignos, virarem um câncer. Cheguei a cogitar a possibilidade de ser operada num hospital particular. Mas era tudo muito caro, não tinha como pagar — conta a diarista, que já recebeu alta e se recupera em casa, no Barreto.

Atualmente o Antonio Pedro tem 789 profissionais de saúde, entre estatutários e terceirizados, e 1.173 funcionários que trabalham em diferentes setores de apoio. A carência de mão de obra aumentará porque o hospital perderá mais de 200 contratados no último processo seletivo simplificado. Rivello lamenta a situação, mas defende a ideia de que a unidade federal seja uma referência apenas em atendimentos de alta complexidade.

— O hospital realmente encolheu. Perdemos centenas de profissionais e não tivemos reposição. Ao mesmo tempo, mudamos o perfil do nosso atendimento. Um hospital universitário não pode ter uma característica assistencialista. Temos de focar na formação de médicos e no atendimento especializado que a UFF pode proporcionar — diz o diretor.

Ministério faz auditoria; direção se explica

Histórias de longa espera por atendimento também são recorrentes nos corredores do ambulatório. Moradora de Itaboraí, Ana Maria Costa dos Santos, que sofreu um AVC em setembro de 2011, teve de esperar nove meses por uma revisão.

— É um absurdo. Marquei a consulta em janeiro e vou ser atendida hoje (quarta-feira). Estou preocupada porque meus remédios não vêm mais fazendo efeito — conta Ana Maria, que, após ser examinada, foi informada de que teria de voltar ao hospital em dezembro, mas não para uma nova consulta: daqui a dois meses, ela retornará para agendar um atendimento em 2014.

A direção do hospital informa que iniciará uma reforma do ambulatório até dezembro. A obra tem como objetivo aumentar em até 20% sua capacidade de atendimento.

Em março, uma inspeção do Ministério da Saúde verificou que o Antonio Pedro fechou, à revelia, 88 leitos do Plano Operativo Anual firmado com a prefeitura de Niterói para o período 2012-2013. Com isso, o número total de leitos do hospital caiu de 287 para 199. Auditores constataram também que a unidade descumpriu metas contratuais de internações hospitalares — 50% dos procedimentos previstos nas especialidades de clínica cirúrgica e pediatria não foram realizados. Rivello rebate os dados, afirmando que o descumprimento foi de apenas 10%.

Num relatório entregue aos auditores, a direção do hospital culpou o Ministério da Educação pelo fechamento de 55 leitos. No documento, Rivello atribui o problema à ausência de uma política de reposição de recursos humanos, agravada pelo término de contratos temporários. Em relação aos outros 33 leitos desativados, a direção também condiciona a reativação à contratação de profissionais, à realização de obras e a recursos para o custeio.

Emergência: reabertura esbarra em polêmica

Uma parede de concreto dá lugar à antiga entrada da emergência do Hospital Universitário Antonio Pedro, cujo acesso era feito pela Rua Princesa Isabel. Ela marca o fechamento do principal setor de atendimento médico de Niterói ao longo de cinco décadas. Desde 2009, quando um surto de infecção provocou a interdição da unidade, a população lamenta o fim dos atendimentos no local, que chegou a receber mais de cem mil pessoas por ano. Hoje, representantes da sociedade e do poder público debatem sua reabertura, mas não há qualquer previsão de que isso aconteça.

O assunto se tornou pauta do Executivo no início do ano, quando o prefeito Rodrigo Neves e o secretário de Saúde, Chico D’Angelo cobraram publicamente a retomada do atendimento na emergência. No entanto, o diretor do hospital, Tarcísio Rivello, afirma que sua gestão não abrirá as portas do setor porque o perfil da unidade mudou. Para ele, a medida inviabilizaria o atendimento de casos de alta complexidade no local. A discussão será tema de uma audiência pública que acontecerá sexta-feira na Câmara Municipal.

Rivello afirma que a reabertura da emergência seria equivalente à criação de um outro hospital. Ele diz ainda que não vai ceder à “pressão política” — o diretor do hospital não esconde a irritação ao comentar as cobranças feitas pela prefeitura.

— Não temos mais uma demanda espontânea nem vamos ter. O que temos é uma emergência referenciada, que só recebe pacientes encaminhados de outras unidades da rede pública. Mas isso eles não querem entender. A prefeitura deseja que a emergência esteja aberta para receber qualquer tipo de atendimento. Esse não é um papel da universidade. É um dever do estado e do município. Eles querem transferir para nós as suas responsabilidades — afirma o diretor.

Chico D’Angelo faz críticas à gestão de Rivello. Em maio, o mal-estar entre ambos chegou ao ápice quando o Antonio Pedro fechou a maternidade e a UTI neonatal. A direção acabou sendo obrigada a reabrir os setores após a Justiça deferir um pedido de liminar do município.

— Rivello até poderia manter a emergência fechada, desde que aumentasse o número de atendimentos do hospital. No entanto, está em curso uma política progressiva de fechamento de leitos e de redução de procedimentos. Na área de saúde, se a gente não tiver coragem para enfrentar os desafios de forma firme e sair da zona de conforto, as coisas não avançam — diz o secretário.

Ex-gestores da rede pública e funcionários do Antonio Pedro também têm opiniões distintas sobre o assunto. Alkamir Issa, ex-secretário municipal de Saúde e diretor do Conselho Regional de Medicina, acha que a reabertura da emergência é necessária:

— Acompanhei o fechamento quatro anos atrás, quando realmente não tinha condições de continuar funcionando. Porém, é preciso discutir a reabertura.

Ex-diretora da Faculdade de Medicina da UFF e ex-coordenadora do ambulatório do hospital, Rosana Bittencourt discorda de Rivello:

— O hospital perdeu a alma. Não concordo com o argumento de fechar o serviço por falta de pessoal. Se for assim, o Antonio Pedro vai acabar. Tem que haver negociação.

Para a coordenadora do Sindicato dos Trabalhadores em Educação da UFF (Sintuff), Ligia Martins, a reabertura da emergência tem de ser feita com a contratação de profissionais por meio de concurso público. A mesma posição tem a anestesista Ana Rios, representante dos docentes da UFF no hospital.

— Sou contra a reabertura nas condições atuais, com déficit de profissionais. É preciso que haja concurso público e plano de carreira — opina Ana.

Independentemente dos pontos de vista, qualquer plano de reabertura da emergência esbarraria, hoje, no problema de déficit de profissionais. O governo federal proibiu a realização de concursos públicos nos hospitais federais e a contratação de funcionários temporários, preferindo adotar o modelo de gestão da rede pela Empresa Brasileira de Serviços de Hospitalares. Isso, na visão da UFF, agride a autonomia acadêmica.

Atualmente, a direção do Antonio Pedro negocia a flexibilização do contrato proposto pelo governo federal. Ela quer que a gestão fique com a universidade e a contratação dos funcionários, com a empresa.

O governo federal informa que a decisão de aderir à empresa cabe à universidade. Segundo o Ministério da Educação, a aceitação da proposta possibilitaria a contratação dos profissionais necessários à reativação dos leitos.

ASSOCIAÇÃO DE CIRURGIA PEDIÁTRICA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (CIPERJ)

Rua Sorocaba 477, sala 403, Botafogo, Rio de Janeiro, RJ. CEP: 22271-110
TEL: (21) 4141 3233
- contato@ciperj.org


©CIPERJ. Todos os direitos reservados.                 Desenvolvido por: Julio Gois