| Em
2006, o hospital recebia três vezes mais: eram
realizados aproximadamente 600 mil atendimentos nos
dois setores. Enquanto as estatísticas diminuem,
o sofrimento dos pacientes aumenta. A espera por uma
cirurgia chega a durar mais de 24 meses, e a marcação
de consultas no ambulatório, que só
funciona de segunda a sexta, começa a se limitar
a uma por ano, dependendo da especialidade, por falta
de médicos.
Por outro lado, a superlotação
e os constantes problemas, como infecções
hospitalares e macas nos corredores, acabaram. De
acordo com o diretor Tarcísio Rivello, a queda
no número de atendimentos é decorrente
de dois fatores: déficit de mais de 500 profissionais
de saúde e mudança no perfil da instituição,
imposta por ele há sete anos. Até abril
de 2014, a carência de mão de obra deverá
aumentar, já que o Antonio Pedro perderá
mais de 200 profissionais temporários.
Operação marcada
desde 2011
A diarista Maria Francisca da Silva,
de 55 anos, sentiu na pele as consequências
da escassez de profissionais de saúde no hospital.
Na última quarta-feira, ela se submeteu a uma
cirurgia para a retirada de dois nódulos no
útero. A operação era aguardada
há dois anos.
— Marquei a cirurgia em setembro
de 2011. Na ocasião, os médicos que
me atenderam prometeram fazer a operação
em janeiro deste ano, mas acabaram adiando. Vivi todo
esse tempo com medo, porque eles haviam dito que,
se demorasse muito, correria o risco de os tumores,
benignos, virarem um câncer. Cheguei a cogitar
a possibilidade de ser operada num hospital particular.
Mas era tudo muito caro, não tinha como pagar
— conta a diarista, que já recebeu alta
e se recupera em casa, no Barreto.
Atualmente o Antonio Pedro tem 789
profissionais de saúde, entre estatutários
e terceirizados, e 1.173 funcionários que trabalham
em diferentes setores de apoio. A carência de
mão de obra aumentará porque o hospital
perderá mais de 200 contratados no último
processo seletivo simplificado. Rivello lamenta a
situação, mas defende a ideia de que
a unidade federal seja uma referência apenas
em atendimentos de alta complexidade.
— O hospital realmente encolheu.
Perdemos centenas de profissionais e não tivemos
reposição. Ao mesmo tempo, mudamos o
perfil do nosso atendimento. Um hospital universitário
não pode ter uma característica assistencialista.
Temos de focar na formação de médicos
e no atendimento especializado que a UFF pode proporcionar
— diz o diretor.
Ministério faz auditoria;
direção se explica
Histórias de longa espera
por atendimento também são recorrentes
nos corredores do ambulatório. Moradora de
Itaboraí, Ana Maria Costa dos Santos, que sofreu
um AVC em setembro de 2011, teve de esperar nove meses
por uma revisão.
— É um absurdo. Marquei
a consulta em janeiro e vou ser atendida hoje (quarta-feira).
Estou preocupada porque meus remédios não
vêm mais fazendo efeito — conta Ana Maria,
que, após ser examinada, foi informada de que
teria de voltar ao hospital em dezembro, mas não
para uma nova consulta: daqui a dois meses, ela retornará
para agendar um atendimento em 2014.
A direção do hospital
informa que iniciará uma reforma do ambulatório
até dezembro. A obra tem como objetivo aumentar
em até 20% sua capacidade de atendimento.
Em março, uma inspeção
do Ministério da Saúde verificou que
o Antonio Pedro fechou, à revelia, 88 leitos
do Plano Operativo Anual firmado com a prefeitura
de Niterói para o período 2012-2013.
Com isso, o número total de leitos do hospital
caiu de 287 para 199. Auditores constataram também
que a unidade descumpriu metas contratuais de internações
hospitalares — 50% dos procedimentos previstos
nas especialidades de clínica cirúrgica
e pediatria não foram realizados. Rivello rebate
os dados, afirmando que o descumprimento foi de apenas
10%.
Num relatório entregue aos
auditores, a direção do hospital culpou
o Ministério da Educação pelo
fechamento de 55 leitos. No documento, Rivello atribui
o problema à ausência de uma política
de reposição de recursos humanos, agravada
pelo término de contratos temporários.
Em relação aos outros 33 leitos desativados,
a direção também condiciona a
reativação à contratação
de profissionais, à realização
de obras e a recursos para o custeio.
Emergência: reabertura
esbarra em polêmica
Uma parede de concreto dá
lugar à antiga entrada da emergência
do Hospital Universitário Antonio Pedro, cujo
acesso era feito pela Rua Princesa Isabel. Ela marca
o fechamento do principal setor de atendimento médico
de Niterói ao longo de cinco décadas.
Desde 2009, quando um surto de infecção
provocou a interdição da unidade, a
população lamenta o fim dos atendimentos
no local, que chegou a receber mais de cem mil pessoas
por ano. Hoje, representantes da sociedade e do poder
público debatem sua reabertura, mas não
há qualquer previsão de que isso aconteça.
O assunto se tornou pauta do Executivo
no início do ano, quando o prefeito Rodrigo
Neves e o secretário de Saúde, Chico
D’Angelo cobraram publicamente a retomada do
atendimento na emergência. No entanto, o diretor
do hospital, Tarcísio Rivello, afirma que sua
gestão não abrirá as portas do
setor porque o perfil da unidade mudou. Para ele,
a medida inviabilizaria o atendimento de casos de
alta complexidade no local. A discussão será
tema de uma audiência pública que acontecerá
sexta-feira na Câmara Municipal.
Rivello afirma que a reabertura da
emergência seria equivalente à criação
de um outro hospital. Ele diz ainda que não
vai ceder à “pressão política”
— o diretor do hospital não esconde a
irritação ao comentar as cobranças
feitas pela prefeitura.
— Não temos mais uma
demanda espontânea nem vamos ter. O que temos
é uma emergência referenciada, que só
recebe pacientes encaminhados de outras unidades da
rede pública. Mas isso eles não querem
entender. A prefeitura deseja que a emergência
esteja aberta para receber qualquer tipo de atendimento.
Esse não é um papel da universidade.
É um dever do estado e do município.
Eles querem transferir para nós as suas responsabilidades
— afirma o diretor.
Chico D’Angelo faz críticas
à gestão de Rivello. Em maio, o mal-estar
entre ambos chegou ao ápice quando o Antonio
Pedro fechou a maternidade e a UTI neonatal. A direção
acabou sendo obrigada a reabrir os setores após
a Justiça deferir um pedido de liminar do município.
— Rivello até poderia
manter a emergência fechada, desde que aumentasse
o número de atendimentos do hospital. No entanto,
está em curso uma política progressiva
de fechamento de leitos e de redução
de procedimentos. Na área de saúde,
se a gente não tiver coragem para enfrentar
os desafios de forma firme e sair da zona de conforto,
as coisas não avançam — diz o
secretário.
Ex-gestores da rede pública
e funcionários do Antonio Pedro também
têm opiniões distintas sobre o assunto.
Alkamir Issa, ex-secretário municipal de Saúde
e diretor do Conselho Regional de Medicina, acha que
a reabertura da emergência é necessária:
— Acompanhei o fechamento quatro
anos atrás, quando realmente não tinha
condições de continuar funcionando.
Porém, é preciso discutir a reabertura.
Ex-diretora da Faculdade de Medicina
da UFF e ex-coordenadora do ambulatório do
hospital, Rosana Bittencourt discorda de Rivello:
— O hospital perdeu a alma.
Não concordo com o argumento de fechar o serviço
por falta de pessoal. Se for assim, o Antonio Pedro
vai acabar. Tem que haver negociação.
Para a coordenadora do Sindicato
dos Trabalhadores em Educação da UFF
(Sintuff), Ligia Martins, a reabertura da emergência
tem de ser feita com a contratação de
profissionais por meio de concurso público.
A mesma posição tem a anestesista Ana
Rios, representante dos docentes da UFF no hospital.
— Sou contra a reabertura nas
condições atuais, com déficit
de profissionais. É preciso que haja concurso
público e plano de carreira — opina Ana.
Independentemente dos pontos de vista,
qualquer plano de reabertura da emergência esbarraria,
hoje, no problema de déficit de profissionais.
O governo federal proibiu a realização
de concursos públicos nos hospitais federais
e a contratação de funcionários
temporários, preferindo adotar o modelo de
gestão da rede pela Empresa Brasileira de Serviços
de Hospitalares. Isso, na visão da UFF, agride
a autonomia acadêmica.
Atualmente, a direção
do Antonio Pedro negocia a flexibilização
do contrato proposto pelo governo federal. Ela quer
que a gestão fique com a universidade e a contratação
dos funcionários, com a empresa.
O governo federal informa que a decisão
de aderir à empresa cabe à universidade.
Segundo o Ministério da Educação,
a aceitação da proposta possibilitaria
a contratação dos profissionais necessários
à reativação dos leitos.
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